
Por que chartres é um lugar de peregrinação?
I. O VÉU DA VIRGEM
Em 876, Carlos, o Calvo, rei da França e imperador do Ocidente, doa a Chartres uma relíquia insigne que recebera de seu avô Carlos Magno: o véu da Virgem Maria. Segundo a tradição, esse véu, usado pela santa Virgem na Anunciação e na Natividade, teria sido conservado em Constantinopla, antes de ser dado pela imperatriz do Oriente… Trata-se de um pedaço de seda lisa cor creme, de 5,35 m por 0,46 m, datado do primeiro século.

II. A IRRADIAÇÃO DE UM SANTUÁRIO MARIANO
Embora já existisse havia vários séculos, o culto a Nossa Senhora em Chartres adquire muito rapidamente uma dimensão gigantesca: os milagres, que se multiplicam, alimentam a fé viva da Idade Média. Maria cura doenças, protege a cidade e… vela pelas mulheres grávidas. Nesse século XII, a devoção de São Bernardo e de numerosos santos à Virgem transforma o Ocidente: igrejas e catedrais são erguidas por toda parte em sua honra.
O véu, que na memória popular se tornou “a camisa da Virgem”, conservado sobre o altar da catedral, atrai multidões, que fazem procissão o mais perto possível dele, no grande deambulatório, num alegre tumulto do qual os cônegos do lugar tentarão se proteger cada vez mais, fechando-se no coro…
Essa afluência de peregrinos será a fonte das doações que permitiram a construção dessa catedral-relicário, na qual nenhum príncipe nem clérigo jamais pôde pretender ser sepultado, em respeito ao mistério da Assunção de Maria.
Contudo, humildes anônimos, doentes ou pecadores, burgueses e senhores, reis da França e da Inglaterra (entre eles São Luís, que veio cinco vezes a Chartres em peregrinação, e Henrique IV, que ali foi sagrado), príncipes e prelados, fiéis de todas as condições, todos vêm recolher-se junto daquela que pode curá-los, mas sobretudo ajudá-los a progredir na peregrinação de sua vida terrena rumo ao céu, para o qual se lançam as flechas audaciosas.
Depois de um declínio e das horas sombrias da Revolução, será um dia um poeta, Charles Péguy, quem relançará o ímpeto mariano. Sua caminhada até Chartres para confiar a Nossa Senhora seu filho doente e seu desespero pessoal são um exemplo de fé e de conversão que toca e arrasta consigo milhares de jovens, especialmente nas peregrinações de estudantes. Em 1983 é fundada a peregrinação de Cristandade que vocês fazem hoje, sob a égide do Centro Charlier e, depois, da Notre-Dame de Chrétienté.
III. AS “TRÊS NOSSAS SENHORAS” DA CATEDRAL
Se a veneração do véu de Nossa Senhora continua sendo o lugar supremo do encontro do peregrino com sua terna Mãe do Céu, três imagens da Virgem Maria permanecem muito veneradas pelos peregrinos de todas as idades:
Nossa Senhora do Subsolo (Notre-Dame de Sous-Terre) é venerada na cripta desde o século XII, sem dúvida, embora alguns lhe atribuam uma origem mais antiga. Queimada em 1793, a estátua atual é uma cópia de 1976; a Virgem, sentada num trono, tem sobre os joelhos seu Filho, também sentado, que dá a bênção ao mundo.
Nossa Senhora do Pilar (Notre-Dame du Pilier), outrora erguida sobre um pilar diante do jubé que fechava o coro, é hoje invocada no deambulatório norte, não longe do véu da Virgem. Muitas vezes conhecida, por engano, pelo nome de Virgem Negra, ela segura na mão uma pera, que evoca seu papel de nova Eva, que contribui para o resgate da humanidade.
Nossa Senhora do Belo Vitral (Notre-Dame de la Belle-Verrière) é um dos vitrais mais antigos do mundo, provavelmente do século XII, que escapou ao incêndio de 1194 e é venerado de modo específico, desde a sua instalação, por meio de uma vela mantida permanentemente acesa diante dele. Maria é ali representada como Virgem-Mãe, com vestes de um azul luminoso…


Poupado pelo incêndio de 1194, que devastou a catedral e foi a origem indireta da magnífica reconstrução que hoje podemos admirar (tendo permanecido protegido por monges durante três dias na cripta), o véu só escapou parcialmente da fúria revolucionária de 1793. Cortado em pedaços, só dois chegaram até nós, e hoje podem ser vistos no grande relicário, na capela absidal da esquerda, ou no pequeno relicário, na cripta.
Os 3 pilares da peregrinação de chartres
1. Tradição, a raiz da Fé. A palavra tradição vem do latim tradere, “transmitir”. O conteúdo da Tradição é de origem divina, a Revelação. Seu meio de transmissão é sobrenatural, pois é a Igreja que a transmite de modo contínuo. Graças à presença da fé teologal nos leigos, cabe-lhes conservar e transmitir o depósito da fé. O que recebemos de Jesus Cristo, da Igreja e dos nossos pais deve ser passado integralmente aos nossos filhos. Diante da crise litúrgica e da confusão doutrinária que a Igreja vive, nossa escolha é seguir a liturgia Tridentina como o meio mais seguro para a propagação da fé, sem atirar pedras em quem pensa diferente.
2. Cristandade, o tronco da Esperança. A cristandade se apoia no ensino secular da Igreja, sobretudo na doutrina social. Só a realeza social de Cristo pode trazer paz e justiça ao mundo (“Omnia instaurare in Christo”). Como somos seres sociais, o Reino de Cristo deve se encarnar nas famílias, escolas, instituições e cultura, pois a sociedade favorece ou dificulta a salvação das almas. Defender ou reconstruir a cristandande é, portanto, um dever dos cristãos.
3. Missão, a folhagem da Caridade. A missão estende-se em todas as direções, como os apóstolos que partem para evangelizar depois da vinda do Espírito Santo. A missão é a obrigação de levar a todos a graça, o amor e a misericórdia de Cristo, como o fogo do Espírito Santo em Pentecostes. O Evangelho não pode ser silenciado e todo cristão é missionário por natureza. Como diz São Paulo aos Coríntios, "Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!"

Os nossos capítulos


Enquanto Nossa Senhora Aparecida é uma escolha natural para nomear um capítulo brasileiro em uma peregrinação de devoção mariana como a de Chartres, a verdade é que, Terra de Santa Cruz, o nome com a qual a nossa terra foi chamada pelos portugueses, também nos pareceu oportuno.
Felizmente, temos dois capítulos!
Não se trata de voltar ao passado. Trata-se de afirmar a vocação católica e espiritual do nosso país, que, sendo Terra de Santa Cruz, é testemunha e propriedade de Jesus Cristo, que resgatou a humanidade ao ser crucificado enquanto a sua Mãe, Maria Santíssima, intercedia aos seus pés. Como somos católicos precisamente graças a missionários e à Cristandade, vemos como nossa missão a transmissão da fé católica para a salvação das almas e para o reinado pleno de Jesus Cristo sobre o povo brasileiro.
Neste sentido, os capítulos brasileiros Terra de Santa Cruz e Nossa Senhora Aparecida adotam os pilares Tradição, Cristandade e Missão como seus, bem como a Carta da Associação Notre-Dame de Chrétienté, assinada por todos os chefes de capítulo da peregrinação.
carta da associação
notre-dame de chrétienté
1. O objetivo da associação Notre-Dame de Chrétienté, regida pela lei de 1901, é promover a Cristandade entendida como a realização, na vida da cidade, da “realeza de Cristo sobre toda a criação e, em particular, sobre as sociedades humanas” (C.I.C. N°2105). O seu principal meio de ação é a organização de uma peregrinação a Notre-Dame de Chartres, todos os anos em Pentecostes, segundo a tradi ção adotada por Charles Péguy e revivida desde 1983 no espírito de Henri e André Charlier.
2. A associação é católica e liderada por leigos assistidos por um capelão. É livre de qualquer afiliação política.
3. A peregrinação é mariana e missionária. Procura reunir todos aqueles que desejam promover o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, permitindo assim que cada pessoa floresça de acordo com a sua vocação como filho de Deus. É neste espírito que cada peregrino é convidado:
-
durante a peregrinação, a aprofundar, descobrir ou redescobrir todas as dimensões da fé católica e da sua necessária encarnação na pólis;
-
para além da peregrinação, participar, de acordo com as capacidades e a própria situação, nas várias iniciativas temporárias destinadas a " estabelecer tudo em Cristo " (São Pio X).
4. Em total fidelidade à Santa Sé, os organizadores da peregrinação referem-se ao ensino constante da Igreja. Expressam o seu apego à Tradição em todas as suas formas, em particular doutrinária, litúrgica e sagrada, pelo uso exclusivo do rito tridentino, conforme codificado nos livros litúrgicos de 1962, e reconfirmado pelo motu proprio " Summorum Pontificum " de 7 de julho de 2007, como a forma extraordinária, nunca revogada, da liturgia do Santo Sacrifício da Missa. Eles pedem aos padres que os acompanham, que respeitem esta escolha no ministério que exercem durante a peregrinação e durante as várias atividades preparatórias.
5. A participação na peregrinação deve ser feita dentro de capítulos oficialmente reconhecidos e autorizados. Estes são incentivados a manter uma vida límpida fora da peregrinação. Devem partilhar o seu impulso missionário.
6. Os organizadores e líderes do capítulo cumprem todas as disposições desta carta e preparam a peregrinação através de um trabalho minucioso. Esta é uma oportunidade para eles, através do estudo e da oração, de fortalecerem a sua união e aumentarem o seu amor pela Igreja.
7. Os membros da associação Notre-Dame de Chrétienté sabem que são apenas instrumentos nas mãos da Providência. Eles depositam os seus esforços aos pés de Nossa Senhora e toda a sua esperança nela. É neste espírito que se esforçam por espalhar a consagração à Maria e a recitação diária do terço, para que, através dela, todas as almas, famílias e nações possam ser conquistadas para Jesus.
Atualizada 18 de fevereiro de 2010
